Artigo Publicado pelo Jornal "O Liberal" em 09/12/2003
Nossas raízes libanesas
Por Otávio Mendonça
A 22 de novembro último, os libaneses comemoraram o sexagésimo aniversário da sua independência. Associo-me às homenagens merecidas por esse povo que representa - ao lado de portugueses, espanhóis, italianos e japoneses - a quinta fração mais importante de imigrantes diluídos na população brasileira. Nesses contingentes, os caracteres são diversos, embora possuam em comum dois méritos inconfundíveis. O primeiro é que vieram espontaneamente, enquanto os africanos, durante quatro séculos, aqui chegaram em número muito superior mas não por livre escolha, sim quando e onde os colocaram. Quanto aos libaneses, foram amargas as causas determinantes de abandonarem sua pátria. A quem desejar conhecê-las, recomendo os estudos de George Safady "Emigração árabe no Brasil" e "As raízes libanesas no Pará", de Assaad Zaidan.
O Líbano é de uma das mais antigas e prósperas comunidades daquela região intermediária que se autodenomina Oriente Médio ou Próximo. Seus antepassados foram os fenícios e os cartagineses, senhores marítimos do Mediterrâneo, antes que tal domínio se transferisse para o Império Romano. Dos seus portos - Tiro, Sidon, Biblos - mais tarde Beirute e Trípoli - partiram negociantes que plantaram núcleos do porte de Cádis, Málaga ou Barcelona. Nas suas indústrias pioneiras, desenvolveram-se produtos, serviços e técnicas essenciais, como o alfabeto, os vidros, os perfumes, as balanças, os sistemas de medição, certos instrumentos musicais. Entretanto, a posição geográfica privilegiada, a fertilidade do solo cercado de enormes desertos, a vizinhança do mar, e até a beleza da paisagem fizeram desse pequeno grande povo um alvo predileto de sucessivos conquistadores. Uns após outros, o Líbano foi invadido por egípcios, assírios, persas, gregos, romanos, turcos, ingleses e franceses, seus derradeiros senhores até 1943. Entre todos, os mais duradouros e despóticos teriam sido os otomanos. Foi o temor dessa tirania que os incentivou à emigração.
Sua vinda não resultou apenas da esperança de mais terra ou mais fortuna. Assemelhou-se a uma fuga, que os fazia resignarem-se a condições precaríssimas de sobrevivência. Para o Brasil, os primeiros vieram antes da Guerra Mundial de 1914. Na mesma época, chegaram à Amazônia, atraídos pelo ciclo da borracha, cuja fama de fortuna fácil espalhara-se pelo mundo inteiro. Assad Zaidan descreve em cores fortes as peripécias desses emigrantes: - O drama começava em Beirute, ao chegarem os navios menores e os agentes de viagem anunciarem a hora da partida. Os fugitivos penhoravam ou vendiam seus pertences e corriam para o porto. A penúria aumentava em Marselha, quando o emigrante trocava embarcação para a travessia oceânica. Tiravam-lhe o último tostão antes de viajar na quarta classe, por vezes desembarcado em lugar diferente, onde não conhecia ninguém nem falava a língua local. Abandonado, dormia nas ruas, em completa miséria. Queria fazer qualquer coisa para ganhar o sustento e auxiliar a família distante. Não tinha consulado que o protegesse e precisava de dinheiro para iniciar-se no comércio ou lavoura. Agarrava-se numa tábua de salvação, que era a Caixa do Mascate, cheia de agulhas, linhas, pentes, sabonetes... Era o "badriça", o "primo", o "tec-tec" nas vilas do interior e nos arrabaldes das capitais. Após um século e meio, dessas raízes brotaram frondes generosas.
"Em cada rio, em cada selva, em cada vilarejo, em cada cidade, em cada bairro, em cada rua, no comércio, na indústria, na lavoura, nas escolas, nas universidades, nos hospitais, nos laboratórios, na política, na arte, no jornalismo, na construção civil, na economia e em todo alicerce do nosso progresso, encontra-se um ramo daquelas árvores. São netos e bisnetos dos audazes ascendentes, que recomeçaram a vida na Amazônia. Houve tempo em que os chamavam de turcos, quando estes eram seus algozes. Depois, foram conhecidos como sírios, agora como libaneses. Em verdade, são sírio-libaneses, tal a identidade entre os dois países. Entre eles, nenhuma rivalidade. Daí, tantas entidades esportivas, médicas ou beneficentes em comum.
Testemunhando-lhes a integração nos hábitos, na cultura e no desenvolvimento nacionais, sua independência sexagenária não é uma data de estrangeiros, mas sim uma festa para todos nós.